Sociedades Precapitalistas, vol. 6, nº 2, e015, junio 2017. ISSN 2250-5121
Universidad Nacional de La Plata. Facultad de Humanidades y Ciencias de la Educación.
Centro de Estudios de Sociedades Precapitalistas (CESP)

 

ARTICULOS / ARTICLES

 

Ciro Cardoso e a Economia Pré-Capitalista: traços de um intelectual sistematicamente polêmico1



Fábio Frizzo

Universidade Estácio de Sá/Universidade Cândido Mendes, Brasil
fabio.frizzo@gmail.com

 


Cita sugerida: Frizzo, F. (2017). Ciro Cardoso e a Economia Pré-Capitalista: traços de um intelectual sistematicamente polêmico. Sociedades Precapitalistas, 6(2), e015. https://doi.org/10.24215/22505121e015

 

 

Resumo
Ao longo de sua carreira acadêmica, Ciro Cardoso dedicou-se a diferentes áreas da pesquisa histórica, dos futuros da Ficção Científica ao passado remoto da Antiguidade, passando pela música, cinema e pela história da América entre outros assuntos. Nos últimos 25 anos de sua vida, todavia, dedicou-se majoritariamente à História Antiga e, mais especificamente, à Egiptologia. Independentemente do tradicionalismo deste campo, trataremos de demonstrar como Cardoso notabilizou-se pela coerência de sua perspectiva militantemente marxista e, consequentemente, manteve como eixo a negação perspectivas modernizantes nas estruturas sociais da Antiguidade, que acabam por naturalizar o capitalismo como uma essência humana.

Palavras chave: Ciro Cardoso; Historiografia; Marxismo

 

A controversial intellectual: Ciro Cardoso and the Pre-Capitalist Economy

 

Abstract
Along his academic career, Ciro Cardoso has worked on different areas of historical knowledge, from the futures in the Science Fiction to the remote past of Antiquity. Throughout the last 25 years of his life, Cardoso focused mostly on Ancient History and, to be more specific, on Egyptology. Regardless the conservatism of this field of knowledge, this paper shall demonstrate that Cardoso stoods out for his marxist militant view and kept as the axis of his work the denial of modernizing perspectives for the social structures of Antiquity, which ends up to naturalizes the capitalism as a human essence.

Keywords: Ciro Cardoso; Historiography; Marxism

 


Em frase que acabou servindo de epígrafe para um livro em sua homenagem (De Araújo & Lima, 2012), o Prof. Ciro Cardoso afirmava que não era monotemático. Embora tenha se notabilizado internacionalmente por sua atuação nas áreas de “Teoria e Metodologia da História” e “História da América”, produziu e publicou livros e artigos sobre diversos outros temas, desde a História da Índia Antiga até a Literatura de Ficção Científica, passando por vikings e anglos-saxões medievais, povos pré-colombianos, história da África, óperas oitocentistas e música dodecafônica, entre outros.

Tal inquietude temática se apresentava, inclusive, desde o início de sua carreira acadêmica. Ainda estudante do curso de graduação em História, seu interesse primordial estava na História Antiga, da qual acabou se afastando em decorrência de ser cátedra do funesto Eremildo Viana, reconhecido delator da ditadura empresarial-militar. Acabou por apresentar duas monografias na graduação (uma sobre fascismo e outra sobre descolonização do Congo ex-belga), mas escolheu fazer suas pesquisas de pós-graduação na área de História Colonial da Guiana Francesa.

Ao sair do Brasil para fazer seu doutorado na França, em 1968, aproveitou seu período como bolsista em Paris para estudar outros campos de seu interesse e fortalecer aqueles que ele via como os pontos fracos de sua formação. Assim, por um lado, estudou língua egípcia no Museu do Louvre e, por outro, buscou aprimorar seus conhecimentos teórico-metodológicos assistindo os seminários de Pierre Villar ou tomando parte nos debates do C.E.R.M. (Centre d’études et de recherches marxistes).

Após o término do seu doutorado, Cardoso não regressou ao Brasil em razão do risco que corria durante o período ditatorial, já que havia sido informado que seu nome já constava em listas do regime. Partiu para um longo período ensinando na América Central que, em conjunto com sua tese, o tornou reconhecido especialista em História da América. Foi nesta qualidade que chegou para lecionar na pós-graduação no Brasil anos depois.

Se a importância do trabalho do Prof. Ciro Cardoso na expansão e renovação das pesquisas de pós-graduação brasileiras na área de História é bastante conhecida, cabe fazer um recorte no campo ao qual ele dedicou os últimos 25 anos de sua vida, a História Antiga. Trabalhando nesta área desde o final da década de 80, Cardoso orientou mais de 40 teses e dissertações.

A partir de um levantamento rápido, é possível constatar que o Prof. Ciro Cardoso orientou, seja no mestrado ou no doutorado, mais de 15 profissionais que atualmente ocupam os cargos de professores de História Antiga nas Instituições de Ensino Superior públicas do Brasil. Se reduzirmos a escala espacial de análise para o Estado do Rio de Janeiro, nove dos 14 professores de História Antiga em atividade tiveram orientação de Cardoso em algum momento. Ou seja, um total de 64%. Num passado recente, esta cifra chegou a ser de 78% (11 de 14), reduzindo-se em razão de aposentadorias. Todavia, muitos destes postos acabaram ocupados por orientandos de seus orientandos, o que, de alguma maneira, mantém sua herança intelectual viva.

Embora tenha deixado “herdeiros” nas cadeiras de História Antiga, esta herança no recorte cronológico não se reflete na orientação de suas preferências temáticas ou teórico-políticas. Ciro Cardoso é reconhecido internacionalmente por sua produção em História Econômica, campo que não abandonou quando se voltou para o estudo da História Antiga. Foram duas teses para concursos de Professor Titular (UFRJ e UFF) sobre economia do Egito faraônico, pelo menos três livros sobre aspectos da História Econômica da Antiguidade (“Trabalho Compulsório na Antiguidade”, “Sociedades do Antigo Oriente Próximo” e “Modo de Produção Asiático: Nova Visita a um Velho Conceito”), além de dezenas de artigos publicados em diferentes países. Os trabalhos de orientandos que se localizam na área de intersecção entre História Econômica e História Antiga, contudo, não chegam a 10% do total.

O marxismo de Ciro Cardoso, pelo menos no campo da sua produção historiográfica, é praticamente incontestável. No que diz respeito especificamente à História Antiga, tanto suas teses de Professor Titular, quanto seus livros e artigos sobre aspectos da economia têm uma clara orientação marxista. Entretanto, da mesma maneira que no relativo à História Econômica, poucas teses ou dissertações orientadas por ele sobre da Antiguidade se engajaram nesta perspectiva teórico-política: duas sobre escravidão e luta de classes na Roma Antiga (a tese de Sônia Rebel de Araújo, defendida em 1999, e a dissertação de Rafael Rossi, defendida em 2011) e apenas uma sobre economia faraônica (minha própria dissertação, defendida em 2010).

A falta de um legado de orientandos dedicados à pesquisa na área de concentração cronológico-temática e na perspectiva teórico-política que escolheu está, de diferentes maneiras, ligada aos três traços que o próprio Ciro Cardoso identificou, em um artigo inédito de ego-história produzido em 2012, como constantes em sua carreira: 1) a crença no marxismo como a base mais satisfatória para a compreensão da realidade; 2) a busca sistemática pelas polêmicas teórico-metodológicas; 3) o privilégio ontológico dado à atuação como professor frente à de pesquisador.

Portanto, se, por um lado, Cardoso foi um marxista vitalício, por outro, sua predileção pelo magistério o fazia um professor orgânico. Um professor no melhor sentido da palavra, nunca impondo uma visão teórico-metodológica única a seus alunos e alunas. Pelo contrário, reconhecia a importância do diálogo divergente com os estudantes para o seu próprio enriquecimento intelectual, de maneira a admitir que fosse natural sua autoperceção “em primeiro lugar como professor, a seguir como pesquisador”.

A busca “sistemática” pelas polêmicas teórico-metodológicas foi reconhecida pelo próprio Ciro Cardoso como um dos traços intelectuais mais contínuos em sua obra. Isto não foi diferente em sua atuação nos estudos sobre o pré-capitalismo.

O interesse pelos modos de produção não-capitalistas veio desde cedo, ainda na graduação, ao ter contato com os debates marxistas do princípio da década de 1960, e foi um dos impulsos que levaram Cardoso a pesquisar a economia colonial da Guiana Francesa moderna, elaborando a proposta de um modo de produção escravista colonial.

Enquanto boa parte dos estudiosos de História Antiga parece utilizar o recorte cronológico como uma espécie de fuga da realidade contemporânea para um mundo idílico de pirâmides, jogos olímpicos ou arenas de gladiadores, Cardoso manteve sua veia polêmica e totalmente ligada a uma perspectiva política militante dentro do seu ofício historiográfico. No campo da Economia Antiga, nosso autor combateu fortemente visões que podem ser chamadas de modernizantes ou formalistas do passado (Polanyi, 1976).

Ciro Cardoso concordava com a avaliação de M. Finley de que os historiadores da Antiguidade quase nunca se interessavam por questões de método, por vezes, defendendo deliberadamente o não-envolvimento em debates neste campo. Mais especificamente em sua área de maior concentração, a Egiptologia, Cardoso afirmou, em 2003, em texto de síntese sobre as concepções econômicas no Egito faraônico publicado da Revista História Econômica e História das Empresas (vol. VI, n. 1) que a Egiptologia era “uma disciplina bastante tradicional, infensa em muitos casos ao debate teórico” (Cardoso, 2003). David Warburton (1998: 144) foi além, afirmando que mesmo naqueles que se dedicam ao debate teórico, “uma tendência marcante entre os egiptólogos é acreditar que eles entendem a teoria econômica moderna”.

Seja por serem hostis à teoria ou por não a entenderem, os egiptólogos (e egiptólogas) em específico e os historiadores da Economia Antiga em geral acabam por defender, segundo o próprio Ciro Cardoso (2011: 26), “uma maneira modernizante (assimiladora do passado ao presente) de olhar para as realidades econômico-sociais da Antiguidade”. Esta tendência tornou-se hegemônica com a perda de terreno pelo marxismo nos debates sobre a história econômica da Antiguidade a partir de 1991.

Desde meados da década de 1970, o debate sobre a economia faraônica concentra-se na oposição entre tais abordagens modernizantes, por um lado, e, por outro, aquelas que adotam uma perspectiva com base na Antropologia Econômica substantivista derivada do trabalho de Karl Polanyi (2012), que acentuou as diferenças qualitativas entre as economias de mercado (presentes apenas no mundo moderno) e aquelas referentes às sociedades pré-modernas.

Para entender corretamente o contexto do debate é importante situá-lo num quadro geral composto por dois cenários principais e interrelacionados: 1) a crítica ao primitivismo, corrente iniciada a partir da obra do classicista alemão Karl Bücher, que apresentava as economias antigas a partir de um quadro de baixo desenvolvimento (referente em especial ao comércio) e, portanto, diferentes apenas quantitativamente das economias mercantis; 2) a crítica a leituras orientalistas que enfatizaram excessivamente a “imutabilidade” das economias do mundo antigo no oriente e a das realidades dos camponeses ali assentados em pleno no século XIX (leitura, de alguma maneira, compartilhada por Marx, que elaborou seu conceito de Modo de Produção Asiático a partir das fontes disponíveis no período).

Tanto substantivistas quanto modernistas/formalistas buscaram, de diferentes maneiras, superar as interpretações primitivistas. Se os substantivistas o fizeram a partir da afirmação de que havia diferenças qualitativas mais do que quantitativas entre as economias mercantil e pré-modernas, os modernistas/formalistas buscaram montar quadros explicativos que valorizassem a complexidade da economia faraônica no sentido de mostrar que ela teria sido muito mais “desenvolvida” do que supunham os primitivistas e orientalistas. Em outras palavras, modernistas e formalistas buscaram apontar a “modernidade” avant la lettre da economia faraônica.

Como não poderia deixar de ser, este debate entre substantivistas e modernistas/formalistas, ocorrido basicamente na segunda metade do século XX, foi fortemente marcado pelo contexto da Guerra Fria. Neste palco, os polanyianos foram colocados pelos modernistas no papel de defensores do modelo econômico planificado soviético e acusados de transposição ideológica deste contexto para a realidade próximo-oriental da Antiguidade por verem nesta uma lógica redistributiva controlada pelas instituições do aparelho estatal.

No meio deste imbróglio, o egiptólogo inglês Barry Kemp montou seu modelo de interpretação da economia faraônica, que o próprio Ciro Cardoso chamou de “formalismo moderado”. Numa herança liberal, Kemp vê a economia em geral como uma balança que contrapõe o desenvolvimento da iniciativa privada e do mercado à interferência estatal que freia o desenvolvimento mercantil. Em seu famoso texto, “O surgimento do homo oeconomicus”, publicado originalmente em 1989, o argumento do autor para se contrapor aos substantivistas (além da acusação de uma leitura ideológica do passado) é de que não poderia haver uma diferença qualitativa entre as economias pré-modernas e as mercantis por conta de nada menos que a natureza humana!

“O conceito abstrato de obter um benefício com uma venda é uma racionalização do que se consegue ao fazer uma transação proveitosa, de conseguir um bom preço. O último pertence ao reino das estratégias intuitivas de sobrevivência que formam parte do ser humano” (Kemp, 1992: 320).

É evidente que, ao associar um tipo específico de racionalidade econômica à natureza humana imutável, Kemp só poderia entender qualquer perspectiva diferente da sua como sendo ideológica. No mesmo sentido, vão outros autores como Christopher Eyre.

Embora fora do contexto específico da Guerra Fria, produzindo sob a égide do pensamento único neoliberal, Eyre não conseguiu se afastar do argumento de associação ideológica entre uma leitura substantivista e o socialismo. O autor não só seguiu a risca a ideia de uma natureza humana que inclui a racionalidade econômica capitalista, mas também não se preocupou com anacronismos ao utilizar como chaves de análise para a economia faraônica, por um lado, a venda da força de trabalho em larga escala e, por outro, categorias como “capitalista rural”. Segundo Eyre,

“...[as fontes documentais] falam pela superioridade, também no período faraônico, de um modelo econômico dependente da empresa quase-comercial de trabalhadores camponeses individuais e intermediários rurais e não de uma burocracia quase socialista. (...) A empresa, uma avaliação do equilíbrio entre vantagem ou desvantagem, e a noção de lucro não eram desconhecidas no Egito Antigo, ainda que não fossem expressas em termos contábeis modernos” (Eyre, 1997: 386).

No mesmo ano em que saiu o artigo de Christopher Eyre citado acima, David Warburton publicou um livro no qual avança consideravelmente, pelo menos em um sentido, na discussão sobre a economia faraônica, já que propõe – ao contrário da aversão teórica do tradicionalismo egiptológico – a utilização de modelos interpretativos contemporâneos para a análise do passado egípcio. O autor anuncia desde a epígrafe as linhas de sua estrutura teórica, citando David Ricardo e John Maynard Keynes.

O que Warburton trata de fazer, a partir da crítica a uma egiptologia que não conhece teoria, é ir além da naturalização de uma racionalidade capitalista para construir sobre ela o edifício de uma interpretação declaradamente keynesiana da relação entre Estado e economia no Antigo Egito desde a passagem do IV para o III Milênio a.C.. Num livro que poderia se chamar “Eram os deuses keynesianos”, o autor afirma que

“A segurança provinha do governo legítimo e contribuía para o crescimento econômico, e a legitimidade derivava do mando e do reconhecimento dos direitos de propriedades individuais autorizando os governantes legítimos a 'expropriar' bens e trabalho 'compulsório'. (...) era a atividade estatal que gerava o crescimento da demanda e, consequentemente, da produção, da riqueza e da prosperidade”(Warburton, 1997: 54).

Um ano depois, ao publicar um artigo de síntese sobre o pensamento econômico na Egiptologia, Warburton utilizou-se da sua avaliação acerca do Estado faraônico keynesiano para polemizar não apenas com as leituras primitivistas e orientalistas da Antiguidade Próximo-Oriental, mas também com o substantivismo. Numa defesa passional da civilização que escolheu estudar e numa feroz crítica ao eurocentrismo – corretamente constatado por ele em boa parte das análises egiptológicas – Warburton não teve problemas em declarar que os faraós eram keynesianos antes do próprio Keynes.

“O Estado egípcio estava no coração do desenvolvimento econômico e político muito antes da Europa sequer começar a prosperar e os antigos egípcios desenvolveram um sistema de raciocínio abstrato muito antes dos europeus começarem a pensar. A fim de construir templos divinos, o Estado egípcio antigo explorou uma das mais sofisticadas políticas de estímulo à demanda jamais conhecida pela humanidade. Disputar a importância desta conquista se referindo ao incrustamento (embeddedness) da economia é perder completamente o ponto: o Egito era moderno muito antes de Europa” (Warburton, 1997: 170).

Após estes três exemplos de diferentes leituras modernizantes acerca da economia faraônica, passemos às demonstrações da polêmica do professor Ciro Cardoso com este tipo de perspectiva. Se, como vimos, o interesse pelos modos de produção não-capitalistas já vinha desde a graduação e permaneceu em suas pesquisas de doutorado, pode-se dizer que a preocupação com a historicidade e as especificidades das diferentes realidades históricas foi uma constante em sua trajetória.

Certamente o maior sucesso editorial de Ciro Cardoso foi o livro escrito a quatro mãos com seu amigo Héctor Pérez Brignoli e intitulado Los Métodos de la Historia, redigido em 1974 e publicado em 1976, em Barcelona. Logo, o Métodos acabou por se tornar o principal manual de metodologia da História em língua ibérica e foi (ou ainda é) extremamente influente na formação de diversas gerações de historiadores latino-americanos, sendo traduzido no Brasil em 1979.

Já no Métodos, Ciro Cardoso (e, neste caso, também Héctor Brignoli) deixava bem clara a historicidade radical de sua posição acerca das estruturas socioeconômicas das diferentes realidades humanas, além de pensar na necessidade da escolha de metodologias específicas para análise das economias pré-capitalistas.

“...é preciso estudar as relações internas do sistema econômico de uma sociedade com sua estrutura social, único modo de evitar uma generalização da racionalidade capitalista, no atinente à economia, a realidades históricas distintas. Admitido tal ponto de partida, coloca-se um importante problema metodológico: com que conceitos é possível estudar a empresa ‘pré-capitalista’” (Cardoso & Brignoli, 1983: 338-339)?

Intelectualmente inquieto e politemático como era, Ciro Cardoso aproveitou a bolsa de pós-doutorado de um semestre em Nova York, no ano de 1984, destinada a uma pesquisa sobre a “brecha camponesa” (atividades autônomas exercidas por trabalhadores escravizados em sociedades escravistas) para coletar também material sobre economia faraônica na biblioteca do Brooklyn Museum. Poucos anos mais tarde, em 1987, debruçou-se sobre esta documentação para escrever uma tese para o concurso de Professor Titular de História Antiga na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Apesar de nunca ter sido publicada, a tese, intitulada Uma Interpretação das Estruturas Econômicas do Egito Faraônico, é um trabalho excepcional tanto para época quanto para os dias de hoje, tendo, infelizmente, pouca repercussão na área por conta de três motivos correlacionados ao pouco desenvolvimento da Egiptologia em países periféricos, a saber: 1) a crença de Ciro Cardoso de que um trabalho tão especializado em uma área tão pouco desenvolvida não atrairia interesse das editoras para publicação no Brasil; 2) a falta de interesse do autor em internacionalizar sua produção por meio da publicação em línguas estrangeiras; 3) o fato de que o Português é uma língua muito pouco lida na comunidade egiptológica internacional. A comprovação da potencialidade deste trabalho pode ser traçada por um único artigo (Cardoso, 1986), sobre comunidades aldeãs camponesas, derivado dos trabalhos preparatórios desta pesquisa, publicado em francês em Paris no ano de 1986, pelo qual Ciro Cardoso é conhecido entre os egiptólogos europeus.

Outra particularidade desta tese que vale ser destacada é tratar-se de um dos poucos trabalhos marxistas de fôlego produzidos na Egiptologia daquilo que se convencionou chamar de ocidente em oposição ao mundo soviético. Cabe ressaltar a inserção praticamente inexistente do marxismo dentro das reflexões egiptológicas atuais, fazendo com que a tese de Ciro Cardoso, com quase 30 anos, permaneça como fonte importante de reflexão na área, mesmo sendo conhecida apenas – e de forma restrita – na América-Latina.

A aversão à reflexão teórica da Egiptologia já havia sido notada por Ciro Cardoso, especificamente, no que se refere à análise das estruturas econômicas da antiguidade faraônica. Por isto mesmo, na tese de 1987, o autor fez um esforço de síntese das diferentes vertentes de análise da economia egípcia, tendo como contraponto sua visão radicalmente histórica e crítica. Sobre a perspectiva modernista, Cardoso afirmou:

“Temos aí, não hipóteses científicas a comprovar, e sim postulados, e em tais interpretações não nos achamos no domínio da pesquisa histórica (...). A ideologia que vê nos períodos de apogeu da civilização faraônica o triunfo do “individualismo” nascido no ambiente “burguês” das “cidades mercantis” não seria difícil de descobrir; mas não é nossa finalidade” (Cardoso, 1987).

A economia faraônica continuou sendo eixo temático de suas principais pesquisas entre finais dos anos 1980 e meados dos anos 1990. No ano de 1993, especificamente, Cardoso redigiu uma nova tese para concurso de professor titular, agora na Universidade Federal Fluminense (UFF). Neste momento, o trabalho modernista de Barry Kemp sobre o surgimento do homo oeconomicus já era a principal referência na esfera egiptológica internacional no que dizia respeito à economia faraônica (e talvez ainda seja, até os dias de hoje, o trabalho mais citado sobre o assunto). Logo, o que Ciro Cardoso – estimulado por sua veia polêmica – tratou de fazer foi produzir um trabalho cuidadoso sobre a principal documentação utilizada pela Egiptologia para defender a existência de uma iniciativa privada voltada para o lucro e baseada numa essência humana.

Na tese intitulada Hekanakht: Pujança Passageira do Privado no Egito Antigo, Ciro Cardoso não só traduziu a documentação referente a um arquivo privado da estrutura familiar de um sacerdote que teria vivido no último século do III Milênio a.C., como fez um minucioso estudo gramatical e histórico destinado a combater as leituras que projetavam na documentação a existência de uma natureza humana voltada para a obtenção de benefícios econômicos. Como Cardoso afirmou na época,

“Os problemas com “naturezas humanas” postuladas em forma ahistórica – homo oeconomicus (entendido por Kemp como um “homem submetido a uma compulsão de acumular riquezas”) (...) – costumam ser de dois tipos. O primeiro é o empobrecimento radical da consideração do que as sociedades (e culturas) têm de específico, já que, por definição, cada uma delas passa a ser só mais uma manifestação de uma regra ou lei geral que paira acima da História (...). O segundo é que não resistem a uma análise mais circunstanciada, sendo esta a razão maior pela qual preferimos outra visão da História, em que a “natureza humana” é algo que se constrói (e destrói) na e pela história, não existindo fora desta. Ou, se existe, é no estrito nível de trivialidades óbvias: os homens são mortais, comem, bebem, amam, trabalham, comunicam através de signos, etc” (Cardoso, 1993: 238-239).

O tema da economia faraônica só voltou a ser objeto de pesquisas mais extensas no final de sua carreira, tendo Cardoso, inclusive, deixado uma obra inconclusa intitulada Economia e Trabalho no Egito Faraônico. Todavia, não parou de produzir artigos tanto sobre as estruturas econômicas do mundo antigo em geral, quanto sobre o Egito especificamente. Em um importante texto destinado à crítica de algumas correntes mais atuais de análise da economia romana antiga, que tratam paradoxalmente de negar a existência de uma economia romana em favor da posição de que apenas é possível falar em diferentes economias, Cardoso afirmou:

“Seja como for, houve um reforço na opinião favorável à universalização no tempo dos modelos, teorias e noções derivados dos economistas contemporâneos. E os escritos dos que assim pensam têm, acredito, um forte aspecto ideológico de defesa do sistema atualmente vitorioso. O paralelo honesto entre pré-capitalismo e capitalismo sói conduzir, porém, como me parece natural, muito mais a diferenças do que a semelhanças, quantitativa tanto quanto qualitativamente. (...) As diferenças entre as economias antigas e as modernas não eram de grau, mas sim, de natureza” (Cardoso, 2011).

Neste trecho, Ciro Cardoso aponta o início de um caminho de resposta para a questão que levantou retoricamente com Brignoli nos anos 1970 acerca do problema metodológico relativo aos conceitos a serem utilizados na interpretação das estruturas econômicas pré-capitalistas. Negando também uma história descritiva e tradicional, que sói afirmar a impossibilidade da utilização de conceitos modernos, como o de “classe”, por exemplo, na análise do mundo antigo e medieval, Cardoso mostrou como o método de análise do passado só pode ser aquele que Marx sintetizou em sua famosa afirmação de que “a anatomia do homem é chave para a anatomia do macaco”.

Foi a partir de uma reflexão deste tipo que foi produzido um artigo com o título de Marx e Engels: história e economia política. Aspectos gerais e considerações sobre um tema específico, relativo à antiguidade clássica: a circulação de mercadorias, publicado em 2011 num livro sobre História e Historiografia da Economia Antiga. Neste texto, Ciro Cardoso trabalha em especial com os textos mais tardios de Marx e Engels, como os Grundrisse, O Capital e O Papel do Trabalho na Transformação do Macaco em Homem, além de algumas cartas, para demonstrar que os pais fundadores do materialismo histórico já haviam descoberto os elementos fundamentais das distinções entre capitalismo e pré-capitalismo, sem que isto impossibilitasse a visão – a partir do capitalismo – das chamadas formas “antediluvianas” de categorias capitalistas em sociedades pré-capitalistas.

Reconhecido o caráter histórico e inelutável de uma visão retrospectiva da história, o pré-capitalismo só pode ser entendido, portanto, a partir da relação com as categorias mais complexas e bem acabadas do capitalismo. A saída para evitar o caminho do anacronismo e da modernização do passado é explicar as diferenças. No artigo que citamos por último, Cardoso elenca várias delas. A primeira seria a de que as bases das formas de exploração econômica pré-capitalistas estão erigidas sobre relações pessoais, enquanto no capitalismo as relações de produção assumiram a forma fetichizada de relações entre coisas.

Em segundo lugar, Cardoso ressalta a diferença entre a formação e ação das classes sociais. No capitalismo, tanto a classe dominante quanto a subalterna desenvolvem para si consciência de sua ação como classe, enquanto no período anterior somente as classes dominantes chegavam a atingir algum nível de coesão, permanecendo os subalternos desagregados. Por este motivo, as revoluções sociais pré-capitalistas geravam apenas a substituição da fração hegemônica da classe dominante no poder, tendo as classes subalternas, nas palavras de Antonio Gramsci, uma história descontínua de busca por reivindicações parciais (Cardoso, 2011b: 20-24).

Pode-se perceber, assim, que a leitura marxista sobre a qual Cardoso se debruçou e para a qual contribuiu acentua o caráter fundamentalmente histórico do capitalismo. Diferente de uma perspectiva modernizante que essencializa o capitalismo na natureza humana, transformando-o em algo ahistórico, Cardoso sempre esteve ao lado de autores como Ellen Wood (2003), que pensam uma história em que os sujeitos são os homens e as mulheres, ao contrário de uma historiografia que parece ver o período humano na terra como a trajetória da luta do capital – onipresente – pela derrubada dos entraves que o contiveram e – dos cada vez mais escassos – que ainda o contêm.

O capitalismo tem um momento específico de surgimento na história da humanidade ao contrário do que muitos querem fazer crer. A principal lição que se pode retirar disto é que sua superação não é apenas uma possibilidade. Um historiador como Ciro Cardoso sabia disto. Sua inquietude temática o transportou por tantas realidades que a única conclusão possível foi a do caráter transitório da história. Afinal, se o Egito faraônico durou aproximadamente três milênios, o capitalismo é, nesta perspectiva, ainda um jovem em nossa trajetória.

A história feita por Ciro Cardoso sempre ressaltou as formas sociais de exploração econômica utilizadas pelos humanos e as possibilidades e experiências reais de resistência de homens e mulheres no tempo. Apesar de sempre ter reafirmado suas críticas a determinadas leituras do marxismo e, devido a seu caráter polemista, ter chegado a afirmar a necessidade de superar vários dos seus aspectos (Cardoso, 2011c), Cardoso foi por toda sua vida um marxista, fato a ser louvado se colocado ao lado de tantos intelectuais de sua geração que viveram um grave processo daquilo que Antonio Gramsci chamou de transformismo.

Seu marxismo se expressou não apenas nas polêmicas historiográficas, mas teve seu grande terreno de militância, como costumava dizer, em seu ofício. Como professor, Ciro Cardoso formou inúmeros marxistas. Se contabilizarmos, ainda, o alcance de seus livros – majoritariamente determinados por suas preocupações didáticas, como ele tinha orgulho em admitir – não seria exagerado dizer que foi fundamental na formação de centenas de marxistas.

Como historiador, marxista e professor, Ciro Cardoso tinha, nas palavras de Walter Benjamin – por quem o próprio Cardoso não sentia nenhuma simpatia, tendo-lhe, inclusive, classificado como para-marxista –, o dom de despertar no passado as centelhas da esperança, convencido de que também os mortos não estão em segurança se o inimigo vencer. Infelizmente, esse inimigo não tem cessado de vencer, mas isto não fez com que Cardoso tenha desistido do combate em seus 70 anos de vida. Com as armas que escolheu, em especial o magistério, ele travou essa luta. Outros hão de ser vitoriosos e, neste momento, o seremos todos. Assim, Ciro, que jaz morto, estará, enfim, seguro e redimido junto com toda a humanidade que tanto o fascinou.


Notas

1 Uma primeira versão deste texto foi apresentada a convite da Associação Brasileira de História Econômica no XI Congresso Brasileiro de História Econômica & 12ᵃ Conferência Internacional de História das Empresas, realizado na Universidade Federal do Espírito Santo, na cidade de Vitória, no ano de 2015.

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Recibido: 23/11/2016
Aceptado: 14/2/2017
Publicado: 8/6/2017

 

 

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